Psicologia da Composição (trecho)

4.

O poema, com seus cavalos,

quer explodir

teu tempo claro; rompendo

seu branco fio, seu cimento

mudo e fresco.

(O descuido ficara aberto

de par em par;

um sonho passou, deixando

fiapos, logo árvores instantâneas

coagulando a preguiça.)

5.

Vivo com certas palavras,

abelhas domésticas.

Do dia aberto

(branco guarda-sol)

esses lúcidos fusos retiram

o fio de mel

(do dia que abriu

também como flor)

que na noite

(poço onde vai tombar

a aérea flor)

persistirá: louro

sabor, e ácido

contra o açúcar do podre.

6.

Não a forma encontrada

como uma concha, perdida

nos frouxos areais

como cabelos;

não a forma obtida

em lance santo ou raro,

tiro nas lebres de vidro

do invisível;

mas a forma atingida

como a ponta do novelo

que a atenção, lenta,

desenrola,

aranha; como o mais extremo

desse fio frágil, que se rompe

ao peso, sempre, das mãos

enormes.

7.

É mineral o papel

onde escrever

o verso; o verso

que é possível não fazer.

São minerais

as flores e as plantas,

as frutas, os bichos

quando em estado de palavra.

É mineral

a linha do horizonte,

nossos nomes, essas coisas

feitas de palavras.

É mineral, por fim,

qualquer livro:

que é mineral a palavra

escrita, a fria natureza

da palavra escrita.

8.

Cultivar o deserto

como um pomar às avessas.

(A árvore destila

a terra, gota a gota;

a terra completa

caiu, fruto!

Enquanto na ordem

de outro pomar

a atenção destila

palavras maduras.)

Cultivar o deserto

como um pomar às avessas:

então, nada mais

destila; evapora;

onde foi maçã

resta uma fome;

onde foi palavra

(potros ou touros

contidos) resta a severa

forma do vazio.



aaaaaaaaaaaaJoão Cabral de Melo Neto

aaaaaaaaaaaaObra Completa

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