04 de janeiro de 2009

Os fatos: eu não quero nada
Nada,
Mas me desfazer
Nada sentir da forma humana. Sentir por outra superfície,
Animal ou vegetal ou mineral.
Partículas esparsas
De um corpo tão contínuo quanto disperso.

ser chão, ou terra, ou água.
fogo não.

nada em mim quer consumir toda a energia, até se acinzentar:
inerte pó apagado.

Terra respira, água respira e as cinzas só são jogadas, ao léu. Plainam no ar, caem até a superfície que encontram e assim prosseguem essa espécie de morte: ser movido por tudo, menos por si.

Água sim.
Entre rio, céu, mar e cada um dos corpos vivos.
Estar em todos os corpos
Estar em tudo que vive
E ser ainda um outro
Sentindo todos os seres que passam por mim
Nadando
Mergulhando
Arrastando
Sentir o movimento involuntário das águas
Sua metamorfose contínua
Fluidez livre de trabalho

Viver em ciclo eterno
Nunca completa
Nunca em falta
Cobrir
de variedades a esfera gigantesca
Sentir o seu giro suspender-me num arrepio
Sentir a proximidade das outras esferas que me atraem para si
E do calor que me transforma

Ver, sem olhos, as rochas se quebrarem,
as superfícies falirem e outras se erguerem
cobrir e enfeitar com ondas os litorais
cair sobre as cabeças
rolar pelos corpos e ruas
seguir

participar da alimentação da terra
afofá-la
e ser sugada por raízes
que são devoradas pelo tempo
ou pelos bichos
passar do corpo da planta ao corpo da lagarta e deste ao do pássaro e da raposa
ou outros e outros quaisquer
multiplicidade ilimitada de percursos
eternamente

todos os tempos da terra
todos os tempos da água
estar lá

dentro e fora de tudo
sobre e sob tudo
e cair
por entre as pedras elevadas
gritando
gritando
gritando
gritando
gritando
gritando
que sou viva
e sempre serei

subindo vapor
caindo chuva
estou viva
viva
viva viva
viva
viva
e feroz
e incontrolável
até mesmo por mim
porque sou água
soberana
e porta
nto
não preciso me poupar


aaaaaaaaaaaaaaAlice Bicalho

aaaaaaaaaaaaaahttp://ensaiodecorpo.blogspot.com/

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